Os deputados e nosso jeito brasileiro

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“Voto pelo meu filho que vai nascer”.

“Voto pela minha esposa, pelo Gabriel, pela Letícia…”.

“Em homenagem a minha mãe, de 90 anos”.

Frases como essas – e outras tantas parecidas – ilustraram as aparições dos deputados na votação quanto à continuidade do processo de impeachment.

O resultado da votação foi aplaudido por muitos e questionado por outros. Mas as frases citando “família” ganharam espaço nas redes sociais e nas conversas.

No geral, questiona-se o conteúdo delas. Afinal esperamos que nossos representantes assumam posição pelo país e por nós eleitores. Espera-se que tenham estudado a questão profundamente e construído a “melhor resposta”.

Mas isso é Brasil!

Aqueles que foram honestos nas suas falas, falaram porque o coração pediu. Aqueles que queriam somente impressionar as plateias atentas do país inteiro, falaram o que achavam que geraria impacto. Aqueles que imitaram os primeiros a falar, entenderam que as frases eram boas e as repetiram.

Razões não devem ter faltado para esse discurso “família”. Mas quaisquer que elas sejam, refletem nosso jeito de liderar, de comover, de discursar. Afinal, cultura Brasil é cultura de “Afiliação”, de laços, de proximidade, e os deputados sabem disso.

Nossos atletas choram quando ganham, e choram nas derrotas. Lembrar de Pelé nos seus 18 anos na Suécia e também Thiago Silva, David Luiz e tantos outros na última Copa. Nesta semana, Cielo – por exemplo – perdeu a chance de participar das Olimpíadas e em lágrimas falou ao pai e à mãe, ainda no local da competição. A emoção parece mais presente nos nossos atletas do que nos americanos, por exemplo, que vivem em uma cultura de Achievement,” de superação.

Tais constatações não são só senso comum, mas resultado de pesquisas interculturais. Essa abordagem é de David McCleland, professor de Harvard que dedicou a vida ao estudo de Motivação Humana e, consequentemente, de cultura de grupos onde determinados Motivos imperam. Motivos são necessidades específicas (de Afiliação, de Realização ou de Influência) e caracterizam a essência de pessoas e de grupos.

Cultura é um jeito de viver coletivo e é difícil de mudar. Por outro lado, se nos chamou tanto a atenção os discursos dos nossos deputados, talvez estejamos em processo de transição cultural, já estranhando discursos voltados a contornos exclusivos de Afiliação. Talvez a história esteja a nos mostrar que é preciso trabalhar a conquista de novos valores e ampliar o leque de objetos de desejo (Motivos).

Para conhecer mais sobre essa Teoria de Motivação, vide o post “Um líder não pode motivar seus liderados”.

Quanto ao nosso país e nossos políticos, que eles entendam os sinais de mudança porque o mundo globalizado exige mais capacitação, mais excelência, mais meritocracia.

Valorizar a família, sempre. Cuidar dela, claro. Mas não em detrimento de uma construção coletiva articulada e produtiva.

Diz-se que em cultura não há certo ou errado; há somente um jeito de ser.

Mas há sempre uma cultura que melhor entrega uma estratégia de longo prazo.

Essa evolução é que temos que buscar como líderes e como cidadãos.

O Brasil vai agradecer.