“Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, Gandhi

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A caminhada seria longa. Era uma marcha de protesto contra a dominação inglesa.

A multidão aumentava a cada povoado; eram muitos os carentes e muitos os que queriam denunciar seu inconformismo. Era uma luta de quilômetros, força coletiva, ideais e corações. Era uma marcha de fé e de passos cansados.

O sal era a questão. O preço do sal era o símbolo de tudo o que era exorbitante, aos olhos da Índia dominada e pobre. A marcha estava programada para atravessar tão longo percurso e terminar na areia da praia, onde o sal, brilhante e claro, se exibiria, na sua plenitude, como dádiva dos céus, ofertada a todos os povos. De graça!

Gandhi era o estrategista e o líder. E mais uma vez mostrou suas competências de líder respeitado e sábio: foco, planejamento, perseverança, consistência.

Após dias e noites, a marcha chegava próximo ao fim. Na beira do mar se encerraria.

Era noite ainda e foi dada voz de descansar. Seria montado o acampamento, pela última vez antes da chegada.

Pela pequena distância entre esse local e a praia, foi proposto a Gandhi que a caminhada se estendesse mais um pouco; o cansaço era grande mas logo todos descansariam com o sentimento de dever cumprido.

Gandhi não acolheu a proposta e as barracas foram montadas.

Gandhi sabia que da marcha participavam fotógrafos e cinegrafistas do mundo todo; a longa e anunciada caminhada tinha dado tempo para a chegada desses propagadores de imagens e de palavras, de papel tão relevante em momentos de impacto e mobilização. A ideia era que o mundo se voltasse para a Índia e se comovesse com sua marcha e sua voz.

Gandhi tinha uma estratégia e era sensível e preparado. Ele sabia que as melhores fotos e filmagens aconteceriam na luz da manhã, na areia branca da praia.

Provavelmente ele não dormiu naquela noite; provavelmente muitos outros aguardaram com os sentidos despertos e a esperança falando alto, no peito. Espera atenta.

No momento certo, foram chamados a se colocar novamente em formação. Estava escuro e a tensão estava lá.

Caminharam juntos, para encontrar a madrugada já com barulho do mar.

E, em bandos, com roupas claras e olhar aberto, pisaram na areia branca da praia, aos primeiros raios do sol.

Brilhavam os raios, os olhos e as máquinas.

Rapidamente o mundo viu que o sal era de graça e que os caminhantes tinham deixado a sua marca.

Provavelmente nesse instante, Gandhi sorriu discreto. Provavelmente nesse momento, ele rezou.